PARTE 2
Naquela mesma noite, trancada no quarto abafado de 5 metros quadrados, Alma não conseguiu pregar olho. Abriu a sua conta bancária no telemóvel velho e olhou para o ecrã a tremer. Tinha exatamente 55427 pesos. Sabia perfeitamente que, com os preços absurdos praticados na capital, aquele dinheiro atirado para um asilo medíocre ou para um quarto alugado desapareceria em poucos meses, deixando-a na miséria absoluta. Determinada a nunca mais depender da caridade ou da compaixão tóxica de ninguém, começou a pesquisar terrenos rurais baratos na internet. Acabou por encontrar um anúncio esquecido: um rancho abandonado no deserto árido do estado de Sonora, a mais de 40 quilómetros da cidade mais próxima. O preço pedido era de 50000 pesos.
Contra todas as probabilidades e ignorando o pânico que lhe apertava o peito, dois dias depois, assinou os papéis e comprou a propriedade. Quando começou a empacotar as suas parcas caixas de cartão, Mateo encostou-se à porta a rir, tirou uma fotografia ao anúncio do rancho e publicou-a no Facebook com a legenda: “Atualização: a minha avó de 67 anos gastou as poupanças todas num bocado de terra morta no meio do nada. O investimento do século.” Os comentários cruéis de conhecidos multiplicaram-se, gozando com a idosa. Alma viu a publicação, engoliu as lágrimas e partiu em silêncio. “Se precisares de voltar…” murmurou Diego, fraco e cobarde até ao último instante. “Eu nunca mais vou precisar de vocês,” respondeu Alma, batendo a porta da velha carrinha do senhor Vicente, um vizinho bondoso que a ajudou com as mudanças.
A chegada ao rancho foi desoladora. Eram 8 hectares de terra completamente rachada pelo sol ardente, sem uma única folha verde. A casa principal era uma ruína de adobe a cair aos pedaços, com o telhado semi-destruído, sem água canalizada e com uma rede elétrica que falhava quase todos os dias. Durante as primeiras semanas, Alma sentou-se no chão de terra batida e chorou até ficar sem forças. As suas mãos encheram-se de bolhas ensanguentadas ao tentar cavar o solo impenetrável com uma enxada velha para tentar fazer uma pequena horta. O dinheiro disponível desceu vertiginosamente para apenas 3500 pesos. A fome e o desespero tornaram-se companheiros diários. Num momento de frustração cega, Alma bateu com a enxada no solo poeirento com toda a raiva que tinha no corpo. Bateu repetidamente até os braços cederem. Aos 80 centímetros de profundidade, a lâmina finalmente afundou com facilidade. A textura da terra mudou de forma radical. Em vez de pó seco, encontrou uma massa húmida, de cor acinzentada com tons esverdeados, que exalava um cheiro mineral muito forte e possuía uma textura suave, quase cremosa.
Intrigada e agarrada à última réstia de esperança, encheu um saco de plástico com aquela massa e apanhou um autocarro para a cidade, onde pagou 180 pesos num laboratório de análise de solos. 10 dias de angústia depois, regressou para buscar os resultados. A técnica de laboratório, de bata branca, entregou-lhe os documentos com as mãos visivelmente a tremer. “Dona Alma, isto não é lama comum. É argila medicinal pura, com concentrações de cálcio, magnésio e silício que eu só vi na literatura científica de cosmética de altíssimo luxo.”
A terra morta e inútil que todos gozaram escondia um verdadeiro tesouro debaixo da superfície. Mas descobrir o tesouro não era suficiente; Alma precisava de o transformar em algo comercializável. Tinha apenas 3320 pesos restantes. Com a ajuda do seu novo vizinho, Don Vicente, que lhe ofereceu o velho caderno de receitas artesanais da sua falecida esposa, Alma comprou ingredientes básicos de saboaria. Após 4 tentativas falhadas que a deixaram em prantos na cozinha improvisada, desperdiçando recursos escassos, à 5ª tentativa, ela afinou a fórmula. A argila integrou-se perfeitamente no sabonete. Nas semanas seguintes, Alma testou o produto em si mesma. As manchas escuras do seu rosto desapareceram e a pele rachada das suas mãos ficou suave como veludo.
No sábado de manhã, empacotou cuidadosamente 30 sabonetes e foi para o movimentado tianguis local. Vendeu os primeiros a 12 pesos cada, ganhando meros 96 pesos nesse dia. Parecia um fracasso, mas na semana seguinte, as oito clientes regressaram eufóricas, trazendo amigas. A argila curava acne, eczemas crónicos e rejuvenescia a pele de forma drástica. O boca-a-boca incendiou a região. De 30 sabonetes, Alma passou a produzir 200, depois 500 por semana, trabalhando dia e noite na sua velha cozinha. Três meses depois, Patrícia, uma influente empresária de cosmética da Cidade do México, apareceu no rancho fascinada pelos relatos. Após analisar os laudos oficiais, propôs uma parceria de ouro: investiria 150000 pesos na infraestrutura em troca da distribuição, deixando Alma com 60% da empresa. Em 7 meses, a marca “Argila Dona Alma” estava à venda em 60 lojas espalhadas por vários estados do país. O negócio faturava 40000 pesos líquidos mensais para a idosa. O rancho abandonado converteu-se num pavilhão de produção organizado que empregava 15 mulheres da comunidade rural.
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